Conheça o brasileiro que ajudou a descobrir o primeiro buraco negro adormecido fora da Via Láctea

Buracos negros são regiões do espaço com uma força gravitacional tão forte que nem mesmo a luz consegue escapar. E se mesmo a luz, que é o movimento mais rápido do universo, não consegue livrar-se da fome incontrolável desses monstros cósmicos, pode-se ter uma ideia de seu poder de atração.

Recentemente, o mundo recebeu a primeira imagem real do buraco negro supermassivo central da Via Láctea, chamado Sagitário A*. Os buracos negros estão girando constantemente à medida que as órbitas de gás fluem ao seu redor, no que é chamado de horizonte de eventos. No entanto, nunca foram registradas imagens em movimento capazes de mostrar toda essa turbulência – algo que, um dia, a partir dessa descoberta, os cientistas acreditam ser possível.

Não é à toa que o estudo dos buracos negros fascina tanto os pesquisadores do cosmos. Todo o mistério que envolve estes fenómenos torna irresistível o desejo de os descobrir cada vez mais e de poder desvendar cada um dos segredos que escondem.

Leonardo Andrade de Almeida é o cientista brasileiro que ajudou a descobrir o primeiro buraco negro adormecido fora da Via Láctea. Imagem: Arquivos pessoais

Professor da Universidade Federal do Rio Grande (UFRN) e Professor dos Programas de Pós-Graduação em Física da UFRN e da Universidade do Estado do Rio Grande (UERN), Leonardo Andrade de Almeida, Mestre e Doutor em Astrofísica pelo Instituto Nacional de Pesquisas (INPE) ), é um dos milhares de cientistas em todo o mundo que aspiram a isso.

E ele já tem mais um motivo de orgulho, além de seu currículo admirável, que já trabalhou em importantes instituições de ensino e pesquisa no Brasil e no exterior, como a Johns Hopkins University e o Science Institute Space Telescope nos Estados Unidos e o Royal Observatório em Edimburgo, no Reino Unido.

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Almeida é o primeiro autor de um estudo, publicado em 2017 na revista científica Astronomia e Astrofísicaque foi o artigo inicial do projeto ” A massiva vigilância binária da Tarantula” liderado por Ph.D. em Astrofísica Hugues Sana, que visa estudar detalhadamente 100 sistemas binários compostos pelas estrelas mais massivas da região da Nebulosa da Tarântula, na Grande Nuvem de Magalhães, galáxia vizinha ao Caminho leitoso.

Descoberta de um buraco negro adormecido reuniu quase 20 anos de observações

Essas investigações levaram à descoberta do sistema VFTS 243, que contém o primeiro buraco negro de massa estelar “adormecido” a ser detectado fora de nossa galáxia. Em entrevista com Aparência digitalAlmeida compartilhou como contribuiu para essa descoberta incrível.

“Nosso artigo relata 51 sistemas binários espectroscópicos de linha única – sistemas de dois componentes, mas com uma assinatura nas linhas espectrais, ou ‘sinais eletromagnéticos’, de apenas um deles – encontrados na amostra. de 100 binários”, explicou o pesquisador.

A animação mostra o sistema binário VFTS 243, formado por uma estrela 25 vezes mais pesada que a nossa e um buraco negro com pelo menos nove vezes a massa do Sol.

Segundo ele, é a partir desses resultados que o pós-doutorando em astrofísica Tomer Shenar e seus colaboradores aplicaram o método de desembaraçamento espectroscópico, que é usado para separar as contribuições dos dois componentes de um sistema binário. “O objetivo era então caracterizar o componente invisível dos 51 sistemas, sendo o VFTS 243 o único a não apresentar nenhuma assinatura proveniente do componente oculto”.

A pesquisa utilizou dados de espectroscopia capturados pelo Very Large Telescope (VLT) do Observatório Europeu do Sul (ESO), obtidos entre outubro de 2008 e março de 2014, bem como dados fotométricos do projeto Optical Gravitational Lensing Experiment (OGLE) coletados ao longo de 19 anos (entre 2001 e 2020).

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Conheça o brasileiro que ajudou a descobrir o primeiro
A Grande Nuvem de Magalhães, uma das galáxias mais próximas da Via Láctea, onde o sistema VFTS 243 foi descoberto. Imagem: John A Davis –

“A diferença neste estudo está na análise feita com esses dados”, diz Almeida. “Usando a técnica de desembaraçamento espectroscópico, foi possível, usando os dados do VLT, chegar à conclusão de que o segundo componente binário não contribui de fato com nenhuma luminosidade para o sistema. »

Graças à análise conjunta de dados fotométricos e espectroscópicos, foi possível determinar que a massa mínima do corpo invisível era cerca de nove vezes a massa do Sol. “Segundo a teoria da evolução estelar, objetos dessa massa e sem emissão eletromagnética devem ser buracos negros”, explica o pesquisador, revelando que o sistema VFTS 243, que fica a 158.200 anos-luz da Terra, tem uma estrela principal 25 vezes mais pesada. do que o nosso.

Quando os buracos negros não recebem matéria de uma estrela companheira ou do espaço ao seu redor, eles não emitem radiação eletromagnética – o que foi observado no VFTS 243. Por isso, eles são chamados de “adormecidos”. .

A desvalorização da ciência no Brasil desencoraja pesquisadores

O significado da descoberta deste buraco negro na Grande Nuvem de Magalhães não se limita ao fato de que é a primeira vez que um buraco negro “adormecido” com uma estrela companheira de alta massa foi identificado fora da Via Láctea.

Os parâmetros deste sistema mostram que o colapso da estrela progenitora em um buraco negro gerou pouco ou nenhum material ejetado. Essa questão tem implicações importantes para a astrofísica estelar, bem como para as taxas de geração e detecção de ondas gravitacionais”, explica Almeida. “Isso porque este sistema está começando a impor restrições observacionais cruciais aos tipos e distribuições de supernovas e à sobrevivência de sistemas binários de buracos negros. »

Ou seja, temos muitos motivos para nos orgulhar de mais um brasileiro que está fazendo a diferença e levando o nome do nosso país a ser reconhecido no mundo científico. Esse clímax, no entanto, não foi fácil de alcançar.

“Está cada vez mais difícil produzir ciência de ponta no Brasil devido aos sucessivos cortes orçamentários. Ano após ano, estamos perdendo competitividade e nossos cientistas para outros países e para o setor privado”, lamenta Almeida.

Soma-se a isso a queda no número de bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado, que já acumula uma desvalorização de quase 70% em uma década. “Sem a oxigenação dessa nova geração de cientistas em nossos programas de pós-graduação e sem financiamento para grandes projetos, caminhamos por um caminho sem volta. A única solução para essa triste realidade é uma política de Estado que valorize verdadeiramente a ciência e o cientista”.

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