Brasil | “Carnaval chegou”: no Rio, que comece a festa

Brasil |  “Carnaval chegou”: no Rio, que comece a festa

(Rio de Janeiro) “Muita impaciência, muito cansaço também”, confidencia Pedro H. Gaspar. O “cansaço”, para esta bailarina, vem de longos meses de ensaios exigentes. A “impaciência” pode ser explicada em poucas palavras: o Carnaval do Rio está começando, finalmente vai desfilar.


“Falamos muito aqui do “TPC”, a tensão pré-carnavalesca que todo integrante de uma escola de samba sente”, explica à AFP. Este jovem negro de 30 anos, sorriso largo e elegância evidente, é um dos “passistas” da Unidos de Vila Isabel, uma das doze prestigiadas escolas que desfilarão nas noites de domingo e segunda-feira.

“O carnaval chegou”, segundo a expressão consagrada: o pontapé de saída oficial foi dado na sexta-feira com a entrega das chaves da cidade ao Rei Momo, o jovial monarca que simboliza a irreverência desta festa barroca.

“A tomada do poder feita com essa alegria, essa energia e todo esse amor […] serão sempre bem-vindos neste país”, disse o prefeito do Rio, Eduardo Paes, durante cerimônia colorida.

FOTO RICARDO MORAES, REUTERS

O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, entrega a chave da cidade ao “Rei Momo”, simbolizando o início oficial do evento.

Nos últimos dias, os “blocos”, estas procissões musicais, ora modestas, ora enormes, espalharam-se pela cidade, atraindo multidões em disfarces improváveis ​​que vêm balançar em ritmos variados, embriagadas de alegria e cerveja.

Mas, como todos os anos, ao lado do carnaval de rua, a festa culminará com suntuosos desfiles no Sambódromo, espaço lendário com 70 mil lugares. Assinado pelo arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer, o monumento de concreto completa 40 anos.

O samba tem cem anos. E esta música inventada por comunidades descendentes de escravos africanos forçados a ir para o Brasil continua tão criativa e explosiva como sempre.

Carros alegóricos monumentais, dançarinos em trajes brilhantes e seções rítmicas arrasadoras defenderão as cores de sua escola em uma competição acirrada.

“Questões fundamentais”

Além das apresentações, o carnaval também demonstrará sua relevância política e social.

No programa: exaltação de figuras negras por vezes pouco conhecidas, de tradições com raízes na África, mas também homenagens prestadas às comunidades indígenas.

A escola Salgueiro celebrará a resistência dos Yanomami, povo da Amazônia que vive uma grave crise humanitária causada pelo garimpo ilegal de ouro.

O drama atingiu proporções terríveis sob o presidente de extrema direita Jair Bolsonaro (2019-2022), com seu sucessor de esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva, lutando para reverter a situação.

“O desfile das escolas de samba continua sendo um lugar onde o Brasil pensa em si mesmo”, entusiasma-se o antropólogo Mauro Cordeiro. “O carnaval carioca é um espaço onde são discutidas as questões políticas e sociais fundamentais do Brasil.”

Se também há espaço para a leveza – o hit dos desfiles de 2024 já é uma música dedicada ao caju, fruta com suco tão delicioso quanto sua famosa noz – o carnaval é coisa séria.

As festas cariocas, que geram receitas consideráveis ​​– 5,3 mil milhões de reais (1,4 mil milhões de dólares canadianos) esperados para o turismo este ano – não estão imunes às preocupações actuais.

Enquanto o Rio é assolado pela criminalidade, as autoridades anunciaram o envio de milhares de policiais por toda a região durante o carnaval, principalmente no entorno do Sambódromo.

Outra questão séria: a epidemia de dengue, doença tropical que já causou cerca de cinquenta mortes confirmadas no país. A cidade declarou estado de emergência sanitária e repelentes contra mosquitos serão distribuídos aos espectadores do desfile.

Sucessão

Isto não deve diminuir o encanto, nem impedir que as grandes escolas de samba, enraizadas nos bairros populares, mantenham a liderança: durante alguns dias, a periferia ocupa o centro das atenções.

A Mangueira é uma delas. Leva o nome da favela onde foi criado há 96 anos, a poucos passos do estádio do Maracanã, templo do futebol brasileiro.

Este ano, a escola da bandeira verde e rosa optou por exaltar Alcione, ícone do samba, ao contar a infância da cantora, que este ano comemora 50 anos de carreira.

O astro cofundou, há 36 anos, a filial Mangueira dedicada à formação artística infantil. Bárbara Rachel, 30 anos, nascida na favela e oriunda da escola, é hoje a diretora cultural.

“É muito comovente porque Alcione é uma figura que marcou nossas vidas. E ela marcou não só a minha vida, mas a de toda uma geração que está comigo”, afirma a jovem, cujos alunos, por sua vez, desfilarão no carnaval infantil.

A próxima geração está pronta. Como diz Alcione em uma de suas canções mais famosas: “Não deixe o samba morrer”.

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